Escola Shaykhí

" Os ministros e defensores de Sua Fé serão o povo da Pérsia. Em seu nome, o nome do Guardião, precede o do Profeta.”
Imame Ja’far-i-Sádiq 

Shaykh

Shaykh Ahmad ibn Zayu’d-Dín al-Ahsã’í  1743-1826

 

Kazim

Siyyid Kázim -i- Rashtí 1773-1843

 

A Escola Shaykhí foi fundada por Shaykh Ahmad ibn Zayu’d-Dín al-Ahsã’í (1743-1826) e continuadas pelo seu sucessor, Siyyid Kázim -i- Rashtí (1773-1843).
Podemos considerar a Escola Shaykhí como um ramo do Islã Shiita que pela inspiração divina de seu fundador conseguiu reconhecer os sinais e profecias das escrituras a eminência da revelação do Prometido. Sem dúvida é está percepção escatológica que distingue os shaykhis das demais escolas islâmicas.
Segundo NICOLAS (1910) Shaykh Ahmad nasceu na cidade de Ahsá no nordeste da península Arábica. Nasceu em berço Shiita embora seus antepassados fossem sunitas. Segundo Siyyid Kázim apud NICOLAS (1910):

Nosso mestre viu certa noite, o Imame Hasan; A Salvação esteja com ele! Sua Santidade lhe pôs na boca sua língua abençoada. Da saliva adorável desta Santidade retiraram ele as ciências e a ajuda de Deus. O gosto era açucarado, mais doce que mel, mais perfumado que almíscar; ademais, estava bem aquecida. Quando voltou a si e despertou de seu sono irradiava em seu íntimo as luzes da contemplação de Deus, transbordando da inundação de suas bênçãos e, se desapegou totalmente de tudo, salvo de Deus. Sua crença e sua fé em Deus aumentaram ao mesmo tempo que sua submissão à Vontade do Altíssimo. Por causa de um amor excessivo, de um desejo impetuoso que nascia de seu coração, esqueceu de comer e de vestir-se, exceto o indispensável para não  morrer. ( p. 06)

Nabil assevera que a missão de Shaykh Ahmad não foi outra senão preparar os homens para reconhecer o Prometido o Imame Mihdí.

DOUTRINA SHAYKHI

Segundo MOMEM(1985), a doutrina Shaykhí se caracteriza pelos seguintes aspectos:

(i) Sobre Deus: Os Shaykhis aceitam uma essência de Deus incognocível totalmente diferente da realidade humana. Sob este aspecto o homem é incapaz de conhecer a essência de Deus. Qualquer definição de Deus feita pelo homem não passa de vã imaginação. Os homens podem conhecer apenas um reflexo da realidade divina mas nunca poderá abarcar a totalidade desta realidade. Esta concepção nega a concepção Sufí da unidade existencial e mística com Deus.
Outra característica da compreensão de Shaykh Ahmad sobre a realidade Divina é que ele considera que a compreensão da Divindade pode ser alcançada sobre dois caminhos, o conhecimento essencial inseparável da própria essência de Deus e o conhecimento criado através da ação Divina ou seja os atributos de Deus.
(ii) Sobre os Profetas: Para Shaykh Ahmad os Profetas são intermediários entre Deus e os homens. Não há similitude entre Deus e o Profeta nem entre o homem e o Profeta. O Profeta não é apenas um homem que Deus escolheu para ser o receptáculo de Sua Revelação. No entanto, o Profeta é o único que possui as capacidades e atributos que o torna o mais perfeito dos homens. Sobre este tema Shaykh Ahmad nega a idéia Sufi de que o homem purificando a si mesmo pode chegar ao grau de Profeta.
(iii) Sobre os Imames: Shaykh Ahmad considera como a primeira criação feita por Deus através da luz de Muhammad. Da luz da luz dos Imames estão o restante dos crentes.
Os Imames são os instrumentos da criação do mundo, eles são intermediários através dos quais os homens obtém alguma compreensão das realidades divinas. É também através deles que o homem pode ser reconduzido ao caminho de Deus. Shaykh Ahmad tinha extrema veneração pelos Imames.
(iv) Sobre a Natureza do Mundo: Entre o Mundo físico e o Mundo espiritual há um plano intermediário denominado o mundo do Hurqalyã  ou o mundo das imagens arquétipas. Tudo o que existe no mundo físico possui sua contraparte no Hurqalyã. O ser humano possui dois corpos um existindo no mundo físico e outro no Hurqalyã. O 12º Imame oculto vive supostamente na realidade do Hurqalyã.
(v) Escatologia: Para Shaykh Ahmad a Ocultação do 12º Imame não se refere ao mundo físico mas sim ao mundo das imagens arquétipicas. Deste modo o reaparecimento do 12º Imame teria outra dimensão uma dimensão profética em relação ao nosso mundo.
O fenômeno da Ressurreição, para Shaykh Ahmad, acontece com o corpo do homem no plano do Hurqalyã. O homem através de suas ações neste plano define a sua vida no Hurqalyã.
(vi) Sobre a Viagem Noturna do Profeta. (Mi’rãj): O Mi’rãj refere-se a viagem noturna do Profeta Muhammad para um lugar próximo de Jerusalém e sua ascensão aos céus. Para o Islã Ortodoxo esses eventos ocorreram concretamente com o corpo físico do Profeta. Shaykh Ahmad assevera que tais eventos ocorreram com o corpo místico do Profeta e não com o físico.
(vii) Os quatro pilares da Religião: Esta chave da doutrina Shaykhí foi desenvolvida não tanto por Shaykh Ahmad mas principalmente pelos seus sucessores. Para Shaykh Ahmad, diferente do Islã Ortodoxo, considera que a Unidade Divina e a Justiça divina correspondem ao que ele definiu como Sabedoria de Deus. Sendo assim os dois primeiros pilares do Islã Ortodoxo resume-se neste último. Os três restantes oram acrescidos no tempo de Siyyid Kázim. O quarto pilar refere-se a contínua presença neste mundo do Perfeito Shiita (ash-Shí’í al-Kamil, corresponde ao conceito Sufí do Homem Perfeito). Este homem seria um intermediário entre o Imame Sagrado e este mundo. Os Imames inspiram este intermediário e a este recaem parte da autoridade dos Imames.

O ESCOLA SHAYKHÍ SEGUNDO OS ORIENTALISTAS

As principais referências sobre a Escola Shaykhí feitas por Orientalistas Ingleses e Franceses são citadas na tradução da Narrativa de Nabil realizada por Shoghi Effendi.
Segundo citação do Journal of the Royal Asiatic Society (1889):
As características principais do ponto de vista de Shaykh Ahmad parecem ser as seguintes. Ele declarou que todo o conhecimento e toda a ciência se encontram no Alcorão e que, portanto, para compreender os significados internos deste em sua totalidade, deve-se adquirir conhecimento daqueles. Para desenvolver essa doutrina aplicava métodos cabalísticos de interpretação do texto sagrado e se esforçava para familiarizar-se com as diversas ciências conhecidas no mundo muçulmano. Tinha uma exagerada veneração pelos Imames, especialmente o Imame Ja’far-i-Sádiq, o sexto na sucessão, cujas palavras citava sempre… Sobre ávida futura e a ressurreição do corpo também tinha opiniões que, em geral, eram consideradas heterodoxas…..
Declarou que o corpo do homem era composto de diferentes porções derivadas de cada um dos quatro elementos e dos nove céus e que o corpo que ia ser elevado à ressurreição continha somente estes últimos componentes, enquanto os primeiros regressavam às suas fontes originais no momento da morte. A este corpo sutil, que era o único que livrara da destruição, chamou-o de Jism-i-Húriqlíyá….
Afirmou que existia em potencial em nossos corpos atuais "como o vidro em uma pedra".
No que se refere a Siyyid Kázim em um de seus escritos mais proeminentes citado por NICOLAS (1910) comentava que:
… penso, que a Lei Religiosa e os preceitos da moral são alimentos do Espírito. É portanto obrigatório que estas leis religiosas sejam diversas: é necessário que algumas vezes as ordens do passado sejam anuladas, é necessário que estejam formadas de coisas duvidosas e coisas certas, de generalidades e de pontos de vista particulares, de verdades absolutas e de verdades finitas, de verdades aparentes e íntimas, para que a criança chegue a adolescência e seja perfeita em seu poder e capacidade.
É nesses momento que deve aparecer o Qá’im e, depois da sua manifestação, deve-se cumprir o tempo da sua vida e deve ser morto; e quando for morto o mundo terá atingido os dezoito anos de idade…(pp. 60-61).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Shaykhismo manteve sua unidade até a morte de Siyyid Kázim a Escola dividiu-se em dois ramos: um ramo desembocou na Fé Babí e outro sob direção de Karím Khán que é considerado o Dajjál predito pelo Profeta Muhammad ou seja o Anticristo.

REFERÊNCIAS:

MOMEN, M. , An Introduction to Shi’i Islam – The History and Doctrines of Twelver Shi’ism. Oxford: George Ronald, 1985.
NABÍL-I-A’ZAM, Rompedores da Alvorada: A Narrativa de Nabíl vol I & II, trad. L. S. Armstrong . Rio de Janeiro: Ed. Bahá’í do Brasil, 1989.
SMITH, P. The Babí & Bahá’í Religions: From messanic Shi’ísm to world religion.  Cambridge: Cambridge University Press and Geoge Ronald Publisher, 1987.