Zoroastro

mazda

 

O Alado Símbolo de Ahura Mazda (Sábio Senhor)

ORIGEM E ÉPOCA

Religião nascida da revelação de Zoroastro em Sogdiana no reino de Bactriana ou Karezmia (região que corresponde ao leste do Irã, Afeganistão e Turquemenistão) que reformou a proto-religião conhecida como Mazdeísmo (religião dos adoradores de Mazda). A origem cultural de Zoroastro esta ligado ao povo ária, povo que se estabeleceu ao norte da península Indostânica e Planalto Persa. Caracterizado por ser um povo nômade que por volta de 1500 a.E.C sofreram um processo de sedentarização formando pequenos reinos nas regiões mencionadas.
Quanto a datação da Dispensação Zoroástrica existe muitas controvérsias. Segundo DUPUY (1960) as fontes gregas não são suficientes para precisarmos uma data, pois Heródoto praticamente ignora a existência de Zoroastro. Platão, em sua obra Alcebíades, o cita, no entanto sem consistência história porque chega a compará-lo com Zervan (o Tempo) . (1)
Tomando como base a mitologia supunha-se que Zoroastro vivera não menos que 1200 a.E.C.. Tradições apontam o sul da Rússia com a região de contato entre povos indo-europeus e iranianos. O povo meda aparece na história nos tempos do rei Salmanasar II (860-825 a.E.C.) rei da Assíria. Depois de um século, o rei Sargão II mencionava príncipes medas em uma inscrição datada de 713 a.C. No entanto foi com a destruição de Nínive por Ciaxares, que aumentou o poder do reino Meda as custas do colapso da Assíria. Esta hegemonia permaneceu até que foi fundado o II Império Babilônico (606-538 a.E.C.). Este nos parece ser o contexto histórico provável em que Zoroastro teria vivido. Esta consideração leva em conta a origem dos textos avésticos e as características culturais expostas em sua narrativa.
Segundo JACKSON (1901), a data provável da vida de Zoroastro está entre os anos de 660 a 583 a.E.C. Já para AUTRAN, Zoroastro viveu no ano 530 a.E.C. Considerando que Zoroastro viveu 77 anos, seu nascimento teria ocorrido no ano 607 a.C.. Admitindo esta hipótese Zoroastro foi contemporâneo de dois grandes reis da Babilônia Nabucodonosor e Nabonido, pai de Baltazar que pereceu com a queda da Babilônia no ano de 539 a.E.C..
A partir dos estudos de orientalistas franceses MOURREAU (1977) afirma que o surgimento do Profeta nas vésperas do estabelecimento do Império Aquemênida que corrobora as tradições Sassânidas. Todavia se considerarmos o texto dos Gathas (parte do Avesta – texto sagrado zoroástrico) localizaríamos o Profeta no princípio do primeiro milênio a.C logo muito antes do imperador persa Cyrus o Grande (539 a.E.C.).

QUESTÃO TEXTUAL

A obra de Zoroastro é conhecida através dos Gathas, textos arcaicos mencionados em textos contemporâneos conhecidos com Yashts. BREUIL (1988) comenta que os Yashts contém vários elementos de religiões populares do antigo Irã. Todos estes textos fazem parte do Avesta tardio com grande influência dos magos que introduziram elementos do Zervanismo (2) e Mitraísmo.(3)
Avesta é uma palavra derivada do pálavi apastâk, de onde origina a palavra avasta que significa prescrição ou fundamento.
Sendo assim o termo Zend-Avesta introduzido por PERRON e DARMESTETER, acrescenta o termo zend que significa conhecimento, originário do dialeto médio-parta que designa um coleção de textos sagrados. Apastak-u-Zand que por muito tempo designou o conjunto da literatura Avéstica.
A língua dos Gathas é um iraniano oriental arcaico de origem semelhante ao sânscrito e a alguns dialetos afegãos. Os Yashts textos posteriores do Avesta foram escritos em pálavi do período Sassânida e mais tarde em persa.

COMPOSIÇÃO DO AVESTA

O Avesta atual corresponde a aproximadamente a um quarto do Avesta Antigo. O Avesta antigo possuía 21 livros ou nasks.
O Avesta tardio segundo BREUIL (1988) possui a seguinte estrutura:
a) Gathas (canto): parte mais antiga e santa do Yasna (sacrifico), composto de 72 hinos rituais. Os Gathas são 17 desses hinos atribuídos à Zoroastro e redigidos pelo seu discípulo Jamaspa. Os mesmos são divididos em cinco partes: Gatha Ahunavaiti, Gatha Ushtavaiti, Gatha Spente Mainiu, Gatha Vohukhshatra e Gatha Vahishtôishti.
b) Yasht (adoração): hinos de louvor a diversas divindades de língua arcaica com alusões a história do Irã Oriental pré-Zoroástrico. Destacam-se o Farvadin Yasht e Ard Yasht hinos de divinização de Zoroastro.
c) Vendidad (lei contra os demônios) único livro completo que restou possui códice religioso, dogmas e leis provavelmente de época parta (Arsácidas 250-208 a.E.C.).
d) Vispered (todos os senhores) são textos litúrgicos antigos.
e) Niranganstan (código ritual e liturgia dos mortos) escritos parte em avéstico porém diferente dos Gathas, em pálavi da época Sassânida (212 – 642) e época da invasão islâmica no século IX.
f) Bahman Yasht (adoração do bom pensamento) apocalipse em pálavi com diversas profecias atribuídas a Zoroastro.
g) Arta Viraf Namak, livro da descida de Arta Viraf ao inferno.
h) Mainyo i-Khard (espírito de sabedoria), livro de questões e respostas doutrinárias.
i) Bundahism (livro da criação) quase um manual de cosmologia religiosa publicado por PERRON (1771) na sua versão do Zend-Avesta e no original por ANCLESÁRIA (1908) conhecido por Grande Bundahishn.
j) Vicitakiha i Zatspram texto de acentuada influência zervanita.
k) Denkart (obra da religião) constitui uma análise do Avesta data do século IX.
l) Dadistan i Denik, também do século IX que corresponde a respostas de Mihr Xvarset, estudioso da doutrina, sobre liturgia e dogmas da religião.
m) Srand Gumanik Vicar (Solução Decisiva dos Doutos), tratado sacerdotal de crítica às religiões estrangeiras (maniqueísmo (4) , cristianismo, judaísmo e islamismo) e heresias.
n) Sayast Ne Sayast (do que é permitido e não permitido) regras de oração e ritual.
o) Saddar, regras de como ser um crente perfeito.
p) Rivayats, coleção de correspondências em persa entre os parses da Índia e os zartoshtis do Irã mantida no século XV ao século XVIII sobre costumes, cerimônias, prescrições usos e cultos.
q) Textos Épicos como: Shah-Na-Meh de Firdousi, Wis e Ramin de Gorgani (século X e XI) e Zarathuslt Nama de Zarathushti Bahram i-Pazdu antigas narrativas da época pálavi ou parta.

CRONOLOGIA DO TEXTO

Dinastias Período Línguas Textos Mazdeos Escrituras
* antes de VIII a.E.C ? Avéstico Arcaico  Avéstico Recente Gathas  Resto do Avesta alfabeto pálavi
Aquemênidas VI – IV a.E.C. Persa Antigo Inscrições Cuneiforme
Conquista de Alexandre  Seleucidas (gregos) 334 a 330 a.E.C  301 a 64 a.E.C. * * *
Arsahíes (partos) III a.E.C a III d.E.C. Pálavi Textos Mazdeos recentes Pálavi
Sassânidas (persas) III a VII Persa Medio (parsik) Textos Mazdeos e maniqueus *
Invasão Islâmica VII Pálavi com caracteres árabes (parsi) Textos em Parsi Árabe
Mazdeos da Índia em contato com Mazdeos do Irã X, XV a XVIII Persa Moderno (farsi)Pávali Rivayats Árabe  Pávali

PROFECIAS

Podemos distinguir, na literatura Apocalíptica do Avesta, três títulos de Profetas que viriam após Zoroastro a saber:
a) Soshyans do pálavi que eqüivale a Nedjat Dahandeh no farsi que significa Salvador. Atribuídos às Dispensações posteriores à Zoroastro.
b) Hoshidar Mah e Hoshidar Boomit títulos atribuído a um Profeta que apareceria 1200 anos após Zoroastro.
c) Sháh Bahram Varjavand (Supremo Esplendor): Profeta que nasceria da semente de Zoroastro e que traria Glória ao Mundo.

Jesus Cristo:

"Voltarei, e quando Eu vier tu verás uma estrela no leste. Segue-a e Me descobrirás recostado entre palhas" (citado por SCHÜRER)
Inspirados nesta profecia, conta a tradição, que os Reis Magos eram sacerdotes zoroastrianos que foram a Belém de Judá oferecer adoração ao menino Jesus. Os Reis Magos são mencionados uma única vez em Mt 02,01.
A suposição de que os Reis Magos eram adeptos de Zoroastro é confirmada por um manuscrito laurentiano do século XIII conservado em Florença, Zoroastro preveu que uma virgem daria luz a um menino que seria sacrificado pelos judeus. Na época de seu nascimento apareceria uma estrela que guiaria aqueles que crêem até o local do nascimento da criança.
No conjunto dos evangelhos apócrifos da natividade existe a referência no Evangelho Árabe da Infância de Jesus (versão latina de RHENUM, 1697) sobre a mesma profecia:
"E sucedeu que, havendo nascido o Senhor Jesus em Belém de Judá durante o reinado de Herodes, vieram a Jerusalém uns Magos segundo a profecia de Zardust (5)". (OTERO, 1954 p. 131).

Sháh Bahram Varjand – Sôshyans – atribuído a Bahá’u’lláh:

Textos tardios em pálavi da época do reinado da dinastia Sassânida na Pérsia.

… em um mundo de mais excelência, imperecedouro, indeclinável, que jamais terá fim e nem conhecerá corrupção… . Tal esperança é associada com a doutrina do Sôshyans, o Salvador, que apareceria no Fim dos Tempos, quando todas as forças do mal serão definitivamente vencidas no universo. ( LING, Tm I p.150)
…Não devo ter dúvidas…, a vinda do Sôshyans, a ressurreição dos mortos e o corpo final. ( Conselhos dos antigos sábios textos pálavi, ZAEHNER p.16).
…Só no Sôshyans, o prometido Salvador que, nos últimos dias nascerá da semente de Zardust … Ele é destinado a restaurar o mundo. (ZAEHNER p. 82).
… Assim também o milênio de Oshertarmâh o poder de Âz(6) diminuirá tanto que os homens se satisfação em comer a cada três dias e noites. Depois se absterão de comer carne, e comerão só vegetais e leite de animais domésticos. Depois se absterão de beber leite também; então pararão de comer vegetais e beberão somente água. dez dias antes da vinda de Sôshyans alcançam um estado que não comem nada porém não morrem. Então Sôshyans fará ressurgir os mortos… (Bundahism, ZAEHNER p.147).
… Nesse tempo em que a Reabilitação Final aconteça, quinze homens e quinze mulheres dentre aqueles bem-aventurados de quem está escrito que se chamam viventes, viram assistir Sôshyans…( Bundahism, ZAEHNER p.150).
…Então, ao comando do Criador, Sôshyans distribuirá a todos os homens suas retribuições e recompensas segundo suas obras… (Bundahism, ZAEHNER p. 152).

Dia da Ressurreição mencionado nos Gathas:

Na oração, mãos erguidas, peço a alegria de realizar tuas obras. Ó Mazda, Deus da Luz. Enfrentaremos com júbilo a prova do fogo todo-poderoso, a tua no dia da Ressurreição. Ó Mazda, teu fogo ágil e forte, a irradiar a alegria, a também punir e queimar. Até a última revolução do mundo, até sua Ressurreição, o mestre do erro não fará uma segunda vez morrer o mundo. Darás poder aos justos, no fim dos tempos. E apresentarei a teu fogo a oferenda de minha oração. Caminho para a luz com todas as forças de meu desejo… (Gathas – GARAUDY,1981).

Profecia de Zoroastro explicada por Ábdu’l-Bahá:

Havias escrito que se encontra nos livros sagrados daqueles que seguem Zoroastro a profecia de que, nos últimos dias, em três Dispensações distintas, o sol haveria de parar. Na primeira Dispensação, segundo a predição, , o sol permanecerá imóvel por dez dias; na segunda, por duas vezes este tempo; na terceira, por nada menos que um mês inteiro. A interpretação dessa profecia é4 a seguinte: a primeira Dispensação a que ela se refere é a Dispensação de Muhammad, durante a qual o Sol da Verdade permaneceu imóvel por dez dias. Cada dia representa um século. A Era de Muhammad, portanto, deve ter durado nada menos de mil anos – exatamente o período que transcorreu entre o ocaso da Estrela do Imanato e o advento da Era proclamada pelo Báb. A segunda Dispensação mencionada nesta profecia é àquela inaugurada pelo próprio Báb, sendo que começou no ano 1260 (ano Hégira) e findou no ano 1280 (ano Hégira). Quanto a terceira – a Revelação proclamada por Bahá’u’lláh – desde que o Sol da Verdade, ao atingir essa posição, brilha na plenitude de seu esplendor meridiano, fixou-se um mês inteiro como o período de sua duração – o tempo máximo para a passagem do sol por um signo do zodíaco. Disto podes imaginar a magnitude do ciclo bahá’í – um ciclo que haverá de abranger um período de pelo menos quinhentos mil anos. (citado por RABBANI, 1953).

NOTAS

1 – Zervanismo divisão sectária do Zoroastrismo surgida na dinastia Sassânida defensora da idéia do princípio superior ao mundo causa de tudo o que existe.
2 – ver nota 01
3 – culto ao deus Mithra, divindade solar do povo ária associado ao Zoroastrismo porém não mencionado nos Gathas.
4 – Seita fundada no ano 250 d.E.C. por Mani, sacerdote da cidade de Ecbátana sob título de reformar o antigo Zoroastrismo. Caracteriza-se por um rígido dualismo entre o reino do espírito e da matéria e chegou a influenciar o Cristianismo.
5 – Zardust forma pálavi da tradução grega Zoroastro.
6 – Âz significa fome.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BREUIL, P. Zoroastro Religião e Filosofia, São Paulo: IBRASA, 1987.
DUPPY, H. Zoroastro in Titãs da Religião vol VI. Rio de Janeiro: EL Ateneo, 1960
HOVELACQUE, A. L’Avesta – Zoroastre et le Mazdeísme, Paris: Libraries’-Éditeurs, 1880.
MOURREAU, J.J. A Pérsia dos Grandes Reis e de Zoroastro, Rio de Janeiro: FERNI, 1977.
OTERO, A. S. Los Evangelios Apócrifos, Madrid,: Ed Católica, 1956.
RABBANI, Shoghi Effendi. A Dispensação de Bahá’u’lláh, Rio de Janeiro: Ed. Bahá’í do Brasil, 1953.
ZAEHNER, R.C. Las Doctrinas de Los Magos, Buenos Aires: Lidiun, 1983.