Coexistência Religiosa

 

 

Em maio desse ano sete velas foram acesas pelos representantes das principais religiões do Reino Unido numa reunião na Abadia de Westminster, cada uma representando um dos ex-líderes bahá'ís aprisionados no Irã.

Uma obra caligáfica com iluminuras do aiatolá Abdol-Hamid Masoumi-Tehrani, importante clérigo muçulmando, foi entregue aos bahá'ís do mundo com as seguintes palavras: "Convivei com todas as religiões em amizade e concórdia para que se inale de vós a doce fragrância de Deus. Vigiai para que a chama da tola ignorância não vos domine quando entre os homens. Tudo procede de Deus e a Ele retorna. Ele é a origem de tudo e nEle todas as coisas findam".

Iranianos influentes, ativistas de direitos humanos, jornalistas e um proeminente líder religioso reuniram-se numa mostra sem precedentes de solidariedade para comemorar o sexto aniversário do aprisionamento dos sete ex-líderes bahá'ís no Irã (foto).

A casa do Báb em Shiraz, Irã, um dos lugares mais sagrados do mundo bahá'í, foi destruída por Guardas Revolucionários em 1979 e depois completamente arrasada pelo governo.

 


 

Desde 1844, quando a Fé Bahá'í foi fundada, seus adeptos sofrem uma infindável onda de perseguição durante sucessivos governos. Mais de 20 mil bahá'ís foram mortos devido às suas crenças religiosas e milhares sofreram aprisionamento injusto. No entanto, a perseguição aos bahá'ís do Irã assumiu também outras formas: confisco de propriedades, centros administrativos e lugares sagrados; profanação de alguns dos locais mais sagrados da comunidade, bem como cemitérios; vandalização de casas, incluindo atos incendiários; preconceito contra crianças bahá'ís em suas salas de aula; difusão de falsidades grosseiras a respeito dos ensinamentos e da história bahá'í em materiais educacionais escolares; exclusão de jovens da educação superior; cassação aleatória de alvarás comerciais; fechamento de lojas, entre outros.

Até hoje, em sermões religiosos e através da mídia partocinada pelo governo, os bahá'ís são regularmente retratados como hereges e associados à imoralidade e ao ocultismo. Ao mesmo tempo, são regularmente acusados de serem espiões de diversos governos e líderes religiosos têm incitado a população à violência contra a Comunidade.

A perseguição aos bahá'ís do Irã é uma política do governo. Um memorando do governo iraniano, que vazou em 1993, indicando que o progresso da comunidade bahá'í iraniana deveria ser efetivamente "bloqueado", levava a assinatura da figura religiosa de mais alta posição do país, Ali Khamenei. E mais recentemente, ele emitiu uma fatwa (pronunciamento legal no Islã, emitido por um especialista em lei religiosa) na qual foi dito ao povo iraniano evitar toda transação com os bahá'ís.

É contra esse cenário de cego preconceito religioso, fomentado pelos líderes eclesiásticos, que aiatolá Tehrani se tornou o primeiro clérigo de sua posição no Irã pós-revolucionário a falar publicamente sobre o direito da Comunidade praticar sua religião em seu país de origem.

Os meses que se seguiram revelaram como gesto do aiatolá repercutiu com um desejo profundamente enraizado nas pessoas de boa vontade em toda parte, incluindo líderes de uma ampla variedade de denominações religiosas, bem como acadêmicos, jornalistas, e defensores de direitos humanos, tanto no Irã como ao redor do mundo.

Um mês depois do oferecimento da obra caligráfica, vários líderes proeminentes de direitos humanos no Irã (pela primeira vez coletivamente) expressaram seu apoio aos bahá'ís e seus sete ex-líderes aprisionados. Tehrani esteve presente nessa reunião, onde afirmou: "as perspectivas têm que mudar… e eu acho que agora é um momento oportuno para isso".

Fora das fronteiras do Irã a iniciativa de Tehrani inspirou também reações positivas da parte de oficiais de alta posição no mundo islâmico, dando um ímpeto adicional à conversação referente à coexistência religiosa que se forma em seus países.

Esses resultados têm tocado a comunidade bahá'í, não devido a qualquer mudança especial nas suas circunstâncias no Irã (já que relatos recentes mostram que, na realidade, a perseguição à comunidade bahá'í intensificou nos últimos meses), mas porque se relacionam a uma das aspirações mais estimadas pelos bahá'ís: a Unidade.

Mais de cem anos atrás, quando 'Abdu'l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh permeneceu durante um ano no Egito antes de Sua histórica viagem ao Ocidente, o tema da unidade religiosa se destacava frequentemente em suas interações. Enquanto Sua viagem continuava na Europa e América do Norte, Ele reiterou em muitas palestras públicas que, assim como a humanidade é uma, a religião também é uma só, e que embora na sua forma externa as religiões sejam numerosas, sua realidade é uma, tal como os "dias são muitos, mas o sol é apenas um".

O livro "Abbas Effendi" inclui um relato da visita de 'Abdu'l-Bahá, em janeiro de 1913, à pequena cidade-mercado de Woking, no sul da Inglaterra, onde foi erguida a primeira mesquita da Europa fora da Espanha moura. 'Abdu'l-Bahá dirigiu-Se a uma reunião de amigos egípcios, turcos, indianos e britânicos, no pátio da mesquita: "A religião de Deus encoraja as pessoas a preservar os princípios da paz. A grande verdade subjacente da religião de Deus é o amor".

Mais recentemente, em carta dirigida aos líderes religiosos do mundo em 2002, a Casa Universal de Justiça identificou o preconceito religioso como uma força cada vez mais perigosa no mundo: “A cada dia que passa, cresce o perigo de que os fogos crescentes do preconceito religioso venham a provocar uma conflagração mundial cujas consequências são inimagináveis. A crise exige da liderança religiosa uma ruptura com o passado tão decisiva quanto aquelas que abriram o caminho para que a sociedade resolvesse os preconceitos igualmente corrosivos de raça, gênero e nacionalidade."

 

O caminho à frente

A história demonstra que até as atitudes mais simples podem ter grandes consequências. Embora provavelmente o incidente mais frequentemente citado em relação a isso seja negativo (o assassinato do Arquiduque Fernando como tendo deflagrado a Primeira Guerra Mundial), é igualmente verdade que um simples exemplo de altruísmo pode despertar um aumento de consciência que ao final impulsione o avanço de uma comunidade, uma sociedade, uma nação e, por fim, todo o mundo.

Aqueles que buscam soluções para a devastação que neste exato momento ocorre em todo o Oriente Médio, reconhecem que o preconceito e o fanatismo sectário está no âmago dos problemas insolúveis que atormentam as populações daquela região. O atitude de Tehrani desvela um processo de desenrolar paralelo que contrasta com os horrores que o extremismo religioso impõe ao mundo, oferecendo a esperança de mudança construtiva e a possibilidade de que em tal ação se possa colher uma semente que, caso seja cultivada, pode se tornar uma árvore que, por sua vez, se transformará numa floresta.

Fonte: http://www.bahai.org.br/noticias/um-olhar-mais-cuidadoso-sobre-coexistencia-religiosa