Religião: A Questão Do Método e Contextualização Temporo-Espacial

DISCUSSÃO SOBRE O FENÔMENO DA RELIGIÃO E MÉTODO
GIL FILHO, S. F.Departamento de Geografia -UFPR

A revisão da religião, como fenômeno que a luz do processo histórico empreendeu o desenvolvimento e superação do homem no plano de suas concepções diante da vida e na organização das sociedades, torna-se perfeitamente justificável.

O que parece-nos razoável diante dos trabalhos sobre o assunto, está sob o prisma de interpretação da realidade religiosa, que em várias épocas e em vários ambientes culturais os diversos pesquisadores do tema anunciaram relações ou mesmo admitiram possíveis conexões entre as diversas religiões reveladas ao mundo.

O que diagnosticamos no cerne das sociedades humanas é a presença da religião com fenômeno de caráter totalizante.

A opção pôr uma fenomenologia da Religião explica-se pela adaptabilidade do método na não construção de uma argumentação hierarquizante entre os diversos fenômenos possibilitando a busca profunda das realidades.

A Fenomenologia da Religião emprega base teórico-metodológica de HUSSERL (1859-1938). Ele acreditava que os fenômenos devem ser apreendidos na medida em que são vivenciados pela consciência intuitiva. A metodologia neste caso não baseia-se exclusivamente no empirismo mas buscaria as essências das quais os fenômenos não seriam apenas meras aparências e sim eles próprios em sua totalidade. Ou seja, a fenomenologia preocupa-se com o ser enquanto ser a revelia ao modo pelo qual se manifesta, buscando assim as essências absolutas de tudo o que existe.

Este fenômeno porém, não pode ser compreendido na escala pura e simples das ciências humanas, embora a utilização de suas concepções sejam significativas. Seria oportuno admitir que toda e qualquer análise que façamos do fenômeno religioso só será devidamente abrangente se também o considerarmos sob os seus próprios padrões de análise. Ou seja, estudar a Religião pôr ela mesma.

Como comenta ELIADE (1970):

…um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro da sua própria realidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela lingüística e pela arte, etc… é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado. (Trat. Hist. Rel. p. 17)

O conhecimento do fenômeno da religião torna-se inteligível na medida em que o analisamos no plano do sagrado.

Contudo, o problema da análise não é apenas de escala, mas também os ditames da ciência e do método.

Acreditamos que uma visão abrangente do conhecimento seja necessária a fim de não corrermos o risco do reducionismo.

Ao propormos a totalidade do fenômeno religioso tentamos demonstrar a necessidade de rompermos as barreiras da compartimentação da ciência de raízes positivistas.

Quando procuramos uma teoria do fenômeno religioso baseada nos enunciados bahá’ís, nos deparamos com a formação e o conceito de ciência corrente de base estritamente materialista. Porque não admite nada além do concreto e objetivo e acredita na neutralidade do método.

De fato não existem verdades absolutas abarcadas pela égide científica.

A unidade entre ciência e religião se faz necessária. Todavia, o que queremos dizer com esta interação? De nenhum modo podemos condicionar a religião aos limites da ciência ou mesmo aceitar a ideologia da objetividade científica.

Lembrando ARBAB (1986):

Uma das pretensões do mundo intelectual em qualquer campo é a de que eles são objetivos. Asseveram os pensadores que unicamente a ciência é objetiva e que encontra a verdade pôr meio de métodos científicos. A religião, porém, é considerada como assunto subjetivo. Esta pretensão gravada na mente da maioria dos intelectuais é cem pôr cento falsa. (Anais 1ª Conf. AEBB p.08).

A tese da objetividade têm como base no método científico ao qual se atribui a supremacia e a unidade da ciência.

No entanto, não existe apenas um método, mas vários métodos de análise cada qual utilizado de acordo com o caráter da pesquisa que se realiza e às necessidade de cada disciplina específica.

Pôr existirem vários conceitos para o método, podemos considerar que ele é o meio pelo qual há contato entre a realidade e a teoria científica, ou seja, através dele sistematizamos o conhecimento e fazemos ciência.

Para melhor fundamentar nossa elucidação tomemos como exemplo os método dedutivo e indutivo. Tanto o primeiro como o segundo suscitam questões e conclusões do particular para o geral e vice-versa.

O método é limitado tanto como meio de adequar-se à análise de uma realidade, como também podendo estar divorciado de qualquer fundamento real. Pois se partimos de teses falsas chegaremos à conclusões errôneas. Além disso, todo cientista está inserido em uma cultura e estrutura social, assim toda interpretação que ele faça da realidade será condicionada pela instância cultural-ideológica, pelo sistema político-social ou pela formação ético-religiosa.

Não podemos atribuir ao método científico convencional uma preeminência que na realidade não possui.

Segundo GARAUDY (1980):

O Positivismo não conseguiu fugir aos problemas. O idealismo não conseguiu resolvê-los. Esses problemas, (…), decorrem do malogro de um duplo dogmatismo: o da religião e do cientificismo. (p.13).

Para concretizar a harmonia entre religião e ciência há necessidade de se romper esse duplo dogmatismo. Se de um lado acreditamos que os postulados universais propostos nas Escrituras Bahá’ís propõem os meios de rompimento com o dogmatismo religioso de outro no plano da ciência devemos não perder de vista que a discussão teórica metodológica é vital para fundamentar o argumento perante uma nova interpretação do processo temporo-espacial e o papel da religião como direcionadora deste.

Segundo ‘Abdu’l-Bahá (1981):

Las exigências del presente piden nuevos métodos de solución; los problemas del mundo son sin precedente. Las vejas ideas y formas de pensamiento están rápidamente tornándose anticuadas.(p.141)

A aplicação do método científico convencional no estudo da Religião não concretizará a interação desejada entre ciência e religião. Porque o método científico de base no racionalidade cartesiana e recriado sob o racionalismo idealista do positivismo é incapaz de oferecer uma resposta adequada ao fenômeno da religião.

O Positivismo que de modo avassalador permeia as ciências tende a deificar a ciência, negar o propósito da religião enquanto ,uma verdade revelada reforçando um sentimento de antireligião e um idealismo desvinculado da existência de um Ser Transcendente. Sob todos os aspectos esta ideologia é contrária as verdades inculcadas em qualquer religião históricamente revelada.

Segundo SCIACCA (1968):

A ciência é entendida por ele como a revelação do ser, o progressivo realizar-se do Infinito, a solução de todos os problemas, a instauradora de uma nova ordem social. Em suma, a Ciência não é apenas o único conhecimento humano, mas é a ‘nova religião da humanidade’, que torna supérfluas todas as religiões tradicionais e é a garantia infalível do melhor destino do homem, como indivíduo e como membro da sociedade. A moral a política, a religião, toda a atividade humana é canalizada à ciência, a grande esperança, a soberana possibilidade do homem, o ideal novo não deludente. A nova sociedade técnica industrial tem o seu fundamento e a sua garantia na ciência. O ‘otimismo’ positivista, ingênuo e romântico, instaura o culto religioso da própria ciência e, ao invés de ter dela um conceito crítico, tem-na num mito e numa superstição. (…); para os positivistas tudo é ciência, inclusive a filosofia e a própria religião. (…); ‘cientismo’ abstrato… Inimigo de toda metafísica, o positivismo é também ele uma metafísica, que se lança até a adoração do fato e à deificação da matéria. (p. 143)

CONTEXTUALIZAÇÃO DO FENÔMENO DA RELIGIÃO

Contextualizar a Religião significa referenciá-la como algo que faz parte da sociedade humana é uma faceta de suma importância na compreensão do homem e sua realidade.

Contextualizar a religião portanto não é uma tarefa fácil, pois não devemos nos esquecer que qualquer resposta que obtivermos estará vinculada a uma cultura e subcultura a qual pertencemos. Sendo deste modo, corremos o risco de vincular uma série de influências alheias ao fenômeno religioso original como enunciado pelos Fundadores das Grandes Religiões Universais.

Definindo-se religião no plano da revelação da Divindade aos homens através de seus Porta-vozes, poderíamos estar descartando várias manifestações do sagrado nas diversas sociedades nas quais a ausência de uma memória objetiva dificultaria ou mesmo impossibilitará encontrar parâmetros para afirmar que o culto ali expresso teve origem similar, ou seja uma verdade revelada.

Para ‘Abdul’-Bahá (1993):

Desde os dias de Adão até hoje, as religiões de Deus tornaram-se manifestas, uma após a outra, e cada uma delas cumpriu devidamente sua função: revificou a humanidade e proveu educação e esclarecimento. Elas libertaram os povos da escuridão do mundo da natureza, e os conduziram ao esplendor do Reino.(p. 46)

Um exame detido da realidade nos demonstra que existem manifestações do sagrado resguardadas pela tradição oral e manifestadas através de uma gama de simbolismos rituais principalmente nas sociedades tradicionais arcaicas. Compartilhamos a idéia que toda religião, mesmo em sociedades arcaicas, foram reveladas em sua origem através de personagens históricas.

Para reforçar esta tese identificamos várias manifestações do sagrado na sociedades autóctones ameríndias, africanas e asiáticas. Em suas tradições míticas referem-se a heróis que expressam valores divinos incorporados posteriormente pela cultura.

Corroboramos o pensamento de SCHMIDT (apud MEHRABKANI 1974) que todas as religiões mesmo as arcaicas experimentaram o monoteísmo. Consideramos que as manifestações dualistas, politeístas e idólatras foram agregadas posteriormente na medida em que a origem da revelação se distância no plano histórico-espacial e na vivência das diversas culturas.

MEHRABKHANI (1974) identificou pontos essenciais e comuns a todas as religiões:

(i) Devoção à uma Força Suprema além da percepção e compreensão humana mesmo quando relacionada a diversas divindades e forças da natureza;

(ii) Crença na continuidade da vida após a morte;

(iii) Um espectro de valores morais incorporados nas diretrizes sociais.

(iv) Crença em um Juízo Final e o aparecimento de um Messias Escatológico.

A semelhança do Messias das Religiões Universais as religiões arcaicas apresentam a figura do herói o homem arcaico.

No dizer de ELIADE (1985):

Em todos os atos do seu comportamento consciente, o ‘primitivo’ homem arcaico, apenas conhece os atos que já foram vividos anteriormente por outro que não era um homem. Tudo o que ele faz já foi feito. A sua vida é uma repetição ininterrupta de gestos inaugurados por outros. (Mito do Eterno Retorno p.19).

Toda ação no conhecimento do homem,, arcaico só é real na medida em que cada gesto seja parte de uma ação primordial. O Ser primordial e a ação das origens manifestadas pelas sociedades arcaicas são os arquétipos que tornam inteligível à vida. A vida é a plena execução do passado mítico ou a vontade dos que manifestaram o ser primordial.

Nas religiões históricas a vivência do sagrado realiza-se na vida de seus Profetas e apóstolos e em suas diretrizes.

Como explica ‘Abdu’l-Bahá (1979):

…os Santos manifestantes de Deus são focos da luz da realidade, fontes dos mistérios, e das graças do amor. Resplandecem no mundo dos corações e pensamentos, irradiam Suas graças eternas sobre o mundo espiritual, concedem a vida do espírito e brilham com luz verdadeira, a luz da realidade. desses focos de luz, dessas fontes de mistérios, emana a iluminação do mundo. Não fossem os ensinamentos desses Seres e as graças de Seu esplendor, o mundo das almas e dos pensamentos estaria submerso na escuridão impenetrável. Sem os irrefutáveis ensinamentos dessas Fontes de mistérios, o mundo humano tornar-se-ia pasto de apetites e imperativos animais e a própria existência seria uma ilusão – não haveria vida verdadeira. (p.141)

Considerando que a religião é o meio pelo qual o homem obtém uma aproximação existencial com a Divindade, e que esta condição de conhecer a Deus é inerente ao ser, podemos deduzir que a Realidade Primordial manifestou Sua vontade através de homens escolhidos que são a expressão máxima da Divindade em seu contexto temporo-espacial.

Nas escrituras das religiões universais permeia a idéia de que pela impossibilidade do plano material alcançar diretamente o plano da Divindade há necessidade da intermediação dos Profetas.

REFERÊNCIAS:

Associação de Estudos Bahá’ís do Brasil. Anais 1ª Conferência, São Paulo: AEBB, 1985.Ábdu’l-Bahá Respostas a Algumas Perguntas, Rio de Janeiro: Ed. Bahá’í do Brasil, 1977._____. Seleções dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá. São Paulo: Ed. Bahá'í do Brasil, 1993_____. Fundamentos de Unidad Mundial. Terrassa: Ed Bahá’í España, 1981.BAHÁ’U’LLÁH. Kitáb-i-Íqan - O Livro da Certeza. Trad Leonora Armstrong, Rio de Janeiro: Ed. Bahá’í do Brasil, 1977.BÍBLIA DE JERUSALÉM São Paulo: Ed Paulinas, 1981.ELIADE, M. Tratado de História das Religiões. trad N. Nunes & F. Tomaz, Lisboa: Cosmos, 1977._____. O Mito do Eterno Retorno. trad. M. Torres, Lisboa: Edições 70, 1985. 174 p.GARAUDY, R. Perspectivas do Homem. Nova Fronteira, S. Paulo, 1980.HAYEK, S. El, Alcorão Sagrado, São Paulo: Tangará, 1979.LYOTARD, J. F., A Fenomenologia, Lisboa: Ed. 70, 1986.MEHRABKHANI, R. El Esplendor Del Dia Prometido, Terrassa: Ed. Bahá’í de España, 1974.SCIACCA, M. F. História da Filosofia. III, São Paulo: Ed Mestre Jou, 1968.

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