Cega Imitação

O dom da compreensão é uma das maiores dádivas de Deus ao homem. Permite que o homem descubra as realidades e desvende os significados mais ocultos e sutis. Todavia, um dos aspectos primordiais da existência e desenvolvimento da Civilização ainda permanece quase insondável.A Religião, se considerada como fundamentadora do processo histórico, torna-se base de estruturação social e espacial da humanidade. Atualmente, a Religião encontra-se relegada ao conhecimento fantástico, à superstição, à idolatria, a rituais retrógrados e camuflada no materialismo racional. Estigmatizada pela incoerência no que tange a seus argumentos e vítima da interpretação contraditória por parte de sacerdotes e teólogos, a Religião deixou de ser considerada na solução dos diversos problemas da atualidade.

Muitos intelectuais modernos fixaram seu interesse na solução de problemas sociais desvinculada de questões morais e pautaram seus argumentos em teorias materialistas desvinculadas de qualquer padrão ético. Este diagnóstico se baseia na tese de que as Instituições Religiosas perderam sua competência moral e consistência doutrinal no que se refere às soluções dos complexos problemas contemporâneos.Quando retomamos o estudo do fenômeno da Religião, deparamo-nos com uma série de interferências alheias às condições originais da revelação religiosa. Na medida em que nos distanciamos da fonte essencial da Revelação religiosa agregam-se idéias e interpretações muitas vezes divorciadas das teses primitivas da origem histórica da Religião.As Antigas Religiões foram vítimas de um processo histórico de interferência sacerdotal que provocou alterações profundas impossibilitando uma análise que descarte estas interferências.

Sob o ponto de vista ideológico a associação da doutrina religiosa ao poder político repercute na manutenção de uma ordem social injusta. Verifica-se uma contradição entre os princípios essenciais da Fé e a prática institucional.A partir desta discussão consideramos que a negação e perseguição dos fundadores das Religiões está relacionada, invariavelmente, ao questionamento, por parte d’Eles, do poder sacerdotal e político de suas épocas.

Confirmando este pressuposto citamos Ezequiel que repreende os dirigentes de sua época ao afirmar que “Com efeito, eles desencaminham o meu povo; ao dizerem: ‘Paz’ e não há Paz. Enquanto ele constrói uma parede, ei-los a rebocá-la com argamassa.” (Ez 13:10).Jesus Cristo não é menos incisivo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais nem deixais entrar os que querem fazê-lo! Ai de vós guias cegos… Serpentes! Raça de Víboras…” (Mt 23:13-33).

Denúncias semelhantes encontram-se no Alcorão: “Tomaram por senhores os rabinos e os monges em vez de Deus… Ó crentes, em verdade, muitos rabinos e monges fraudam os bens dos demais e os desencaminham da senda de Deus…” (Alcorão 9:31,34).

Bahá’u’lláh também se refere a esta mesma realidade: ”

… prenderam-se aos caminhos apontados pelos sacerdotes do tempo em que viviam e os imitavam cegamente…Esses líderes, estando imersos em desejos egoístas e preocupados com coisas sórdidas, têm considerado estes Luminares divinos como opostos aos padrões de seu conhecimento e sua compreensão e inimigos de seus juízos e normas. Por haverem interpretado literalmente a Palavra de Deus e as declarações e tradições das Letras da Unidade, e as explicado de acordo com sua própria compreensão deficiente, eles privaram-se a si mesmos e a todo o povo, dos abundantes favores e dádivas de Deus.” (Kitáb-i-Íqan p. 52 – 53).

 

GIL FILHO, S. F. 1989

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